Sebastián Piñera venceu a eleição no segundo turno Foto: AFP / BBCBrasil.com
Sebastián Piñera venceu a eleição no segundo turno Foto: AFP / BBCBrasil.com

O que a vitória de Sebastián Piñera no Chile diz sobre guinada à direita na América Latina

A eleição do bilionário chileno confirma a tendência da região de se afastar das propostas de esquerda que prevaleciam há dez anos. Até onde a direita vai conseguir chegar?

Dez anos atrás, o Chile era testemunha do crescimento do poder e da ousadia da esquerda na América Latina.

A esquerda não parava de ganhar eleições com ampla margem de vitória na região. O Brasil era governado por Luís Inácio Lula da Silva; a Bolívia, por Evo Morales; Hugo Chávez comandava a Venezuela e Cristina Kirchner assumia na Argentina. Em novembro, todos esses dirigentes se reuniram na Cúpula Ibero-americana em Santiago.

Uma década depois, no entanto, o Chile é o último exemplo de um fenômeno oposto. A vitória do bilionário Sebastián Piñera no domingo, no segundo turno das eleições presidenciais, é mais um sinal do retrocesso da “maré-vermelha” e o avanço da direita na América Latina.

Piñera venceu Alejandro Guillier, candidato do grupo de centro esquerda Nueva Mayoría, com 54,58% dos votos. Em março de 2018, vai substituir a socialista Michelle Bachelet na Presidência.

Piñera venceu Alejandro Guillier, candidato de centro esquerda Foto: EPA / BBCBrasil.com

Piñera venceu Alejandro Guillier, candidato de centro esquerda
Foto: EPA / BBCBrasil.com

 

“Isso confirma a tendência que vimos nos últimos anos na região: já não vivemos mais em uma época em que governos progressistas se mantém muitos anos no poder”, diz Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

Mas até onde vai essa virada da América Latina em direção à direita?

O “grande problema” da esquerda

Um sinal da importância regional da eleição no Chile veio quando, durante a campanha, Piñera divulgou um vídeo de apoio ao presidente argentino Mauricio Macri enquanto Guillier apareceu ao lado do ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica.

“Sou amigo de Sebastián, o admiro e creio que é um grande dirigente”, disse Macri. Também empresário e também de direita, Macri conseguiu acabar com a hegemonia dos Kirchner na Argentina e ampliou seu poder nas eleições legislativas deste ano.

Sebastián Piñera governou o Chile entre 2010 e 2014 e agora volta para mais um turno
Sebastián Piñera governou o Chile entre 2010 e 2014 e agora
volta para mais um turno Foto: AFP / BBCBrasil.com

O Brasil também seguiu no mesmo caminho no ano passado, com o impeachment de Dilma Rousseff, do PT e a posse de Michel Temer, que tem encabeçado um governo de centro-direita.

No Peru, foi eleito em 2016 o economista Pedro Pablo Kuczynski, que trabalhou para o FMI (Fundo Monetário Internacional). Ele hoje corre o risco de ser deposto por seu envolvimento no escândalo de corrupção da Odebrecht, revelado pela Operação Lava Jato.

Em geral, a direita sulamericana se beneficiou de várias dificuldades enfrentadas pela esquerda regional. Uma delas foi o fim do boom das commodities, que prejudicou economicamente vários governos dependentes dos produtos agrícolas.

Outra foram os diversos escândalos de corrupção. Embora eles afetem partidos em todos os espectros ideológicos, é a esquerda que governava a região, portanto é ela quem paga o maior preço pelo desencanto dos eleitores com a elite no poder.

O presidente argentino Mauricio Macri apoiou Piñera
 O presidente argentino Mauricio Macri apoiou Piñera
Foto: AFP / BBCBrasil.com

A isso se somam divisões internas, como as divergências dentro da coalizão de centro-esquerda que governou o Chile de forma quase contínua desde o retorno da democracia nos anos 1990.

Na última eleição, o grupo foi surpreendido no primeiro turno por Beatriz Sánchez, que teve 20% dos votos. Ela foi candidata da Frente Amplio, uma nova coalizão de esquerda cujos eleitores não parecem ter apoiado Guillier no domingo.

“O grande problema da esquerda sempre foi a falta de unidade, a luta por unidade”, disse Mujica durante a campanha de Guillier.

Falta de novas lideranças

Alguns governos também são acusados de abusos para se manter no poder.

O sucessor de Chávez na Venezuela, Nicolás Maduro, é chamado de ditador pela oposição por tomar o poder da Assembleia Nacional e pelas respostas violentas aos protestos contra o governo, que deixaram mais de 100 mortos neste ano.

Na Bolívia, o presidente Evo Morales caminha para buscar uma reeleição em 2019. Um referendo no ano passado mostrou que o país era contra essa possibilidade, mas o Tribunal Constitucional da Bolívia deu autorização para uma possível reeleição.

“Sinto uma obrigação. Uma pressão. Um destino a seguir, sendo presidente”, disse Morales em entrevista à BBC Mundo neste mês.

Uma das poucas vitórias da esquerda neste ano foi no Equador, com a posse do presidente Lenín Moreno, do mesmo partido do último ocupante do cargo, Rafael Correa. Mas desde então Moreno se distanciou do aliado, que o acusa de traição. O presidente promete buscar um diálogo maior com os opositores e combater a corrupção.

O presidente Equatoriano Lenín Moreno (dir.) se distanciou se seu antecessor, Rafael Correa, apesar de serem do mesmo grupo político
 O presidente Equatoriano Lenín Moreno (dir.) se distanciou
de seu antecessor, Rafael Correa, apesar de serem do mesmo grupo político
Foto: Reuters / BBCBrasil.com

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