Onde estão mais de 1 milhão de vítimas ‘perdidas’ do Holocausto

Giselle Cycowicz, nascida Friedman, lembra de seu pai, Wolf, como um homem gentil e religioso. “Ele era um estudioso”, ela diz. “Sempre tinha um livro aberto, estudando o Talmud (livro da lei judaica), mas também era um homem de negócios e cuidava da sua família”.

Giselle viu seu pai pela última vez, “saudável e forte”, horas depois que sua família chegou ao campo de extermínio de Birkenau, em Auschwitz. Wolf estava para ser enviado como força laboral a um outro local, mas um prisioneiro sob ordens não deixou que a filha se aproximasse dele.

“Aquela teria sido a minha chance de talvez beijá-lo pela última vez”, disse Giselle, agora com 89 anos, com voz embargada de emoção.

Giselle, sua mãe e irmã sobreviveram, de alguma forma, aos cinco meses “no inferno” de Auschwitz. Ela depois soube que em outubro de 1944 “um homem esquelético” passou pelo acampamento das mulheres e deixou uma mensagem às que tivessem vindo de Khust.

“Diga-lhes que 200 homens foram trazidos de volta das minas de carvão. Diga-lhes que amanhã não estaremos mais aqui”. O homem era Wolf Friedman. Ele morreu, na câmara de gás, no dia seguinte.

Seis milhões de judeus foram assassinados por nazistas e simpatizantes durante a Segunda Guerra Mundial. Em muitos casos, as populações judaicas inteiras de cidades foram exterminadas, sem qualquer sobrevivente para ser testemunha – parte do plano nazista de aniquilar todos os judeus da Europa.

Desde 1954, o memorial do Holocausto de Israel, Yad Vashem (“Um memorial e um Nome”), tem trabalhado para recuperar os nomes de todas as vítimas; até agora conseguiu identificar cerca de 4,7 milhões delas.

“Cada nome é importante para nós”, diz Alexander Avram, diretor do Salão de Nomes de Yad Vashem e da Central de Banco de Dados de Nomes das Vítimas do Holocausto.

“Cada novo nome que podemos incluir no banco de dados é uma vitória contra os nazistas, contra o propósito dos nazistas de varrer do mapa o povo judeu. Cada novo nome é uma pequena vitória contra o esquecimento”, acrescenta.

Na Europa Ocidental, os nazistas mantiveram registros das vítimas, tais como a lista de deportação de Frankfurt para Thereisenstadt.
 Na Europa Ocidental, os nazistas mantiveram registros das vítimas, tais como a lista de deportação de Frankfurt para Thereisenstadt. Foto: BBC / BBCBrasil.com

A instituição, um amplo complexo de edifícios, árvores e jardins no monte Herzl, em Jerusalém, reúne detalhes sobre vítimas de duas formas: através de informações daqueles com conhecimento sobre sua morte, e por fontes de arquivos – que vão desde listas de deportação nazistas a anuários de escolas judaicas.

Giselle agora homenageia seu pai, quase 73 anos depois que foi morto, com uma pequena peça de um vasto quebra-cabeças. Ela recebe a ajuda de uma equipe treinada para registrar os detalhes de Wolf na Página de Testemunho, um formulário para documentar informações biográficas sobre o morto, tais como onde ele viveu antes da guerra, sua ocupação e os membros de sua família, e, se possível, uma fotografia.

“Apenas no final perguntamos sobre onde eles estavam durante a guerra e o que aconteceu com eles”, explicou Cynthia Wroclawski, vice-diretora da Divisão de Arquivos de Yad Vashem. “Estamos interessados em ver uma pessoa como uma pessoa, e quem eles eram antes de se tornarem uma vítima”.

Detalhes sobre a vida de milhões de vítimas são mantidos no Salão de Nomes de Yad Vashem.
 Detalhes sobre a vida de milhões de vítimas são mantidos
no Salão de Nomes de Yad Vashem.Foto: BBC / BBCBrasil.com

É como se aquilo fosse uma lápide em papel, diz a instituição. Até agora, Yad Vashem coletou 2,7 milhões de Páginas de Testemunho.

Elas são guardadas em caixas pretas, cada uma contendo 300 páginas – num total de 9 mil caixas. São mantidas aclimatadas em prateleiras ao redor da instalação central – um cômodo de 30 metros de altura com o teto em forma de cúpula, onde são dispostas fotografias de homens, mulheres e crianças que foram assassinadas.

No Salão de Nomes, grupos de visitantes passam numa contemplação silenciosa. Há espaço nas prateleiras para mais de 11 mil caixas – ou seis milhões de nomes.

Com os últimos sobreviventes da guerra morrendo, Yad Vashem enfrenta uma corrida contra o tempo para prevenir que mais de um milhão de vítimas não identificadas desapareçam sem deixar rastro.

Isto fica claro com o número cada vez menor de Páginas de Testemunho que o local recebe – de cerca de 2 mil ao mês há cinco anos para 1,6 mil por mês atualmente.

O memorial está tentando aumentar a conscientização, especialmente entre os sobreviventes do Holocausto que ainda não se apresentaram. Por décadas, para muitos deles, a experiência de falar sobre o assunto era dolorosa demais.

“É algo muito comum, não apenas entre vítimas do Holocausto, mas para sobreviventes de traumas extremos e prolongados na infância”, diz Martin Auerbach, diretor clínico do Amcha, um serviço de apoio a vítimas do Holocausto em Jerusalém.

Há espaço nas prateleiras para mais seis milhões de Páginas de Testemunho
 Há espaço nas prateleiras para mais seis milhões de
Páginas de Testemunho Foto: BBC / BBCBrasil.com

Isto começou a mudar, ele diz, depois de 30 ou 40 anos, quando muitos sobreviventes começaram a falar sobre o aconteceu, não com seus filhos, mas com seu netos curiosos. Auerbach acredita que o Projeto de Recuperação de Nomes é uma parte importante no processo de “cura”.

“Preencher esta página de informação, dizendo quem era seu pai, mãe, avô, sobrinhos e sobrinhas… Você não pode enterrar seus parentes, mas você pode se lembrar deles de uma maneira que irá celebrá-los para sempre, então isto é muito importante e também terapêutico para muitos sobreviventes”.

Enquanto Yad Vashem tem feito grandes avanços em identificar as vítimas da Europa Central e Ocidental – cerca de 95% foram identificadas – poucos nomes foram revelados nas áreas ocupadas por nazistas no Leste Europeu, onde foram assassinados cerca de 4,5 milhões de judeus.

Isso porque, enquanto no oeste do continente houve um processo oficial e organizado de deportação, em todo o leste as comunidades foram aprisionadas e massacradas sem tais formalidades.

Estima-se que 1,5 milhão de judeus foram mortos pelos Einsatzgruppen (esquadrões de extermínio itinerantes), no que ficou conhecido como o Holocausto a Tiros, depois que a Alemanha nazista invadiu a então União Soviética, em junho de 1941.

Por exemplo, dos 33 mil judeus fuzilados no barranco de Babi Yar, na Ucrânia, em setembro de 1941, no maior massacre do tipo, cerca de metade dos nomes ainda não foi identificada.

Outros judeus, em vez de serem mortos pelos Einsatzgruppen, morreram, sem rastros, de fome e exaustão em guetos e campos de trabalho; e outros ainda foram mortos em campos de extermínio próximos – com os corpos amontoados sem qualquer identificação.

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