PÁGINA 64 ENTREVISTA JOÃO VICENTE, FILHO DE JANGO

FUNDADOR DO PDT FALA SOBRE ELEIÇÕES, O PDT NA ATUALIDADE, A IMPORTÂNCIA DE JANGO  PARA O MOMENTO, E REVELA QUE NÃO DESCARTA UMA POSSIBILIDADE DE UMA CANDIDATURA. 

          No atual e conturbado momento brasileiro, a difícil situação política que vive o Congresso Nacional e o descrédito da população nos políticos, que cada vez mais se desvestem de seus disfarces de homens públicos, torna-se inevitável trazer a comparação os momentos que antecederam o Golpe de estado de 1964, que derrubou o Presidente nacionalista João Goulart do poder, e consigo, a figura do líder que lançou como modelo as “Reformas de Base”. Nesta entrevista com João Vicente Goulart, o Página 64 aborda estes questionamentos, da perseguição implacável a Jango, mesmo depois de 40 anos de sua ainda misteriosa morte, e há 53 anos do fatídico 1º de abril de 1964.

João Vicente Goulart diz que reformas pretendidas por seu pai continuam necessárias

PAGINA 64: É ainda, sentida nos dias de hoje, essa esdrúxula maneira de tentarem, as várias forças políticas, esconder a figura de Jango e os verdadeiros fatos que levaram o Brasil ao Golpe civil-militar, que implantou 21 anos de autoritarismo no Brasil?

JVG: Sem dúvidas, não só a figura de Jango como sua luta, seu governo e suas propostas para a Nação brasileira. As forças reacionárias deste país, antes, com a ditadura de 21 anos implantada pelo autoritarismo de um golpe civil-militar, e atualmente com um governo instaurado ilegitimamente através de um golpe jurídico-parlamentar-midiático, continuam a corromper a razão coletiva, não só do governo João Goulart, mas escondem os avanços de qualquer governo progressista.  Para eles isto é fácil, pois imaginem vocês, uma Nação composta com mais de 200 milhões de habitantes, está a mercê de seis famílias que detém 85% dos meios de comunicação, escrito, oral e televisivo.  Colocar a mosquinha da dúvida coletiva é fácil, através de noticiários, novelas que orientam comportamento do bandido bom, entrevistas selecionadas a dedo com jornalistas comprometidos com o grande capital e com as privatizações. A perseguição a quem teve ou tem propostas de uma verdadeira transformação social no país, distribuindo renda e idênticas oportunidades ao seu povo é tratado com a velha babaquice de ser adjetivado como comunista, agitador, corrupto, quando na verdade a maior corrupção, que estamos vendo, parte exatamente dos grandes empresários corruptores, das maiores empresas brasileiras que estão envolvidas aí na Lava-jato. Pena que a fila é seletiva, primeiro os envolvidos dos partidos e movimentos ditos de esquerda, que igualmente aos nomes da direita, entraram na onda da propina para “financiar” suas respectivas campanhas, através de um modelo partidário que visa a captação “por fora e por dentro” e que se encontra apodrecido, na opinião da população. Os partidos viraram antros de negociatas. É venda de espaço de televisão, apoio no Congresso via mensalinho ou mensalão, desvio de finalidade do “Fundo Partidário”, o que traz ao núcleo do partido, interesses diversos daqueles de seu propósito, ou seja, em vez de lutar pela implantação de uma corrente ideológica consistente, a luta travada é comercial, para trazer a qualquer custo a maior quantidade de deputados federais, seja da pelagem ou da raça que forem, não importa, o que importa é a soma deles. Quantos mais deputados, mais fundo partidário.

PAGINA 64: A figura de Jango incomoda hoje alguns? Ainda existe perseguição?

 JVG: Sem dúvidas! Essa perseguição é histórica a Jango, mesmo depois de 53 anos do golpe, nos mostra que as forças reacionárias se infiltraram nos partidos, nas empresas e no modelo eleitoral corrupto. Veja aqui em Brasília, após 10 anos de tramitação, passando por vários governos, conseguimos no Distrito Federal obter do governo Agnelo a “Cessão de Uso” de um terreno para construir o “Memorial da Liberdade Presidente João Goulart”, no Eixo Monumental de Brasília, última obra de Niemeyer para a capital; e foi cassado, por incomodar as elites!

No momento que aprovamos a Lei Rounet e seis emendas de parlamentares que completariam o orçamento para iniciar a obra, o atual governador Rodrigo Rollemberg, do Partido Socialista Brasileiro, manda seu Secretário da Cultura, Guilherme Reis anular “de ofício” um processo que passou por todas as instâncias de governos anteriores, durante 10 anos. Vejam só o tamanho da atitude covarde de Rollemberg, do PSB, que não se animou sequer ele mesmo a decretar a nulidade do convênio e mandou o seu vassalo fazê-lo, através de ato de ofício, tampouco respondendo no prazo de trinta dias, como manda o direito administrativo federal adotado pelo GDF ao questionamento hierárquico para que ele, Rollemberg, se manifestasse. Demorou mais de um ano, como uma forma de acabar com o Instituto Presidente João Goulart, uma vez que desestruturou financeiramente toda a ordem organizacional dessa nossa OSCIP, que foi criada com o único fim de preservar a memória do Presidente João Goulart. Mais uma vez, isto nos demonstra de como os partidos estão infiltrados com traidores da história nacional. Quem antes suporia uma atitude destas de parte do Partido Socialista? De Arraes? De Erundina? De Eduardo Campos? Foi no governo João Goulart quando pela primeira vez a convite de Jango, o Partido Socialista Brasileiro participou do governo com Mangabeira, Evandro Lins e outros.

Na verdade, a atitude deste governador covarde não é de socialista autêntico. É de um “socialite” infiltrado a serviço das elites.

 

PAGINA 64: Mas como está o projeto do “Memorial da Liberdade Presidente João Goulart” que ia ser construído no Eixo Monumental de Brasília?

 JVG: Estamos na luta. No exílio aprendemos que única luta que se perde é aquela que se abandona. Mas nós da família de Jango, já estamos descrentes com alguma solução política de parte de um governadorzinho medroso, traidor das causas socialistas e que governa para as elites empresariais de Brasília.

Quando esta ‘segunda cassação’ de Jango ocorria, era justamente no momento em que a Nação lhe devolvia seu mandato post-mortem, prestava-lhe as Honras de Chefe de Estado, e o nosso Congresso Nacional, anulava a fatídica sessão do dia 2 de abril de 1964, que declarava vaga a presidência da República que consolidou o golpe militar, como uma das páginas mais negras de nosso parlamento. Uma vergonha para o Partido Socialista Brasileiro, cassar Jango pela segunda vez. Nós do PDT, meu partido que ajudei a fundar com meu tio Leonel Brizola, ainda no exílio, em Lisboa, mantínhamos aqui, no DF, uma aliança com o Rollemberg, produzida para disputar as eleições de 2014, onde a coligação foi vitoriosa.

O PDT, no momento se manifestou contra essa atitude e participou de um abraço ao terreno que fora cassado. O Presidente do PDT do DF, Michael Georges e o Presidente nacional Carlos Lupi se fizeram presentes, mas a aliança foi mantida e esperávamos nós da família e do Instituto Presidente João Goulart que pela manutenção dessa participação no governo Rollemberg, se teria alguma solução política, tal foi a reação no momento da cassação. Ledo engano. A aliança espúria foi mantida até hoje. Temos o Presidência da Câmara Legislativa através do Deputado Joe Valle, temos uma super-secretaria e duas autarquias nas mãos do PDT-DF e, com isto os cargos advindos dessa estrutura, é claro fazem esquecer qualquer reivindicação do terreno, que cassou Jango pela segunda vez.

Cansado de pedir audiência com sua excelência Deputado Joe Valle durante mais de um mês,  para expor essa situação que nos aflige, inclusive não só pelo assunto do terreno, mas também pela aflição de o nosso partido estar pendurado no fisiologismo de cargos ao lado de um governador que despreza trabalhadores, direito a greve, que derruba barracos a base de tratores em áreas ocupadas por famílias carentes, que se distancia dos direitos fundamentais da vida que é educação, segurança e saúde pública; cansados de esperar, tivemos que protocolar a carta em seu gabinete para, pelo menos ele saber, que o trabalhismo tem história. Tem que ter atitude. Tem que ter coragem, pois aqui ninguém rema somente a favor da maré e muitos de nós tombaram no caminho da restauração democrática e pela Liberdade, sob exílio e torturas.

PAGINA 64: Mas sendo assim, o Sr. Como fundador do PDT, signatário da “Carta de Lisboa, não tem voz dentro do seu partido, para manifestar essa contradição, que abala inclusive a imagem do Presidente João Goulart e que o partido tanto preza?

JVG: Tenho voz só dentro de minha convicção, de minha consciência. Claro que abala a figura de Jango, abala a figura de Vargas, abala a figura de Brizola, Pasqualini, Doutel, Darcy, Jackson Lago, Abdias Nascimento e tantos outros bravos trabalhistas que se horrorizariam com estas alianças espúrias que vem acontecendo dentro dos partidos. Os partidos que deveriam ser forças motrizes ideológicas se transformaram em forças de captação de recursos espúrios e só funcionam e discutem política eleitoral, e o quanto vai entrar no caixa, com os tremendos recursos em jogo que a cada dois anos, trazem as eleições no Brasil. Mas é por isso mesmo, pela memória de meu pai, pela minha luta constante em busca de seu resgate, de sua biografia, é que escrevi essa carta, inclusive de agradecimento aos deputados distritais que concederam apesar da covardia do governador em cassar o terreno, um título de “Cidadão Honorário de Brasília”, e alertando o Presidente, que afinal veio do PSB para o PDT, que minha trincheira será outra, pois não mais acredito que essa aliança que se mantém através do fisiologismo de cargos, possa trazer algum resultado ao partido, sequer eleitoralmente, e vai ser muito feio se quiserem abandonar o barco no último segundo do naufrágio, só quem faz isso são os ratos de porão e não acredito que o PDT fará isso, no último momento, depois de haver se lambuzado durante todo o mandato Rollemberg. Jango sai agora, a trincheira é outra, não é mais política, agora é judicial.

PÁGINA 64: Como vê o futuro próximo político? A reforma partidária? As eleições de 2018?

JVG: Tudo que se faz as pressas é casuísmo. Voto em lista, fim do fundo partidário, fim das coligações na proporcional, financiamento público, eleição proporcional em dois turnos, eleições com uma primeira rodada “prévia”, várias listas por partido, distrital, distrital misto; enfim, todos estes modelos devem ser discutidos e debatidos com a sociedade e não aprovados às pressas nos gabinetes do Congresso.

O Brasil tem atualmente o modelo mais corrupto de acesso aos parlamentos e aos executivos. Esse modelo de representatividade proporcional está exaurido. Nossa Democracia está infestada no modelo de representatividade de rios de dinheiro. O custo hoje para eleger um deputado federal por São Paulo gira em torno de R$ 15.000.000, quinze milhões de reais e isto deturpa a representatividade popular.

Quem tem quinze milhões para investir em uma candidatura que represente o povo? Quem vai investir são as empresas que precisam de um “funcionário” no parlamento para representar seu interesses, emendar projetos de subvenção de impostos para os seus setores, defender os desmatamentos para implantar novos pastos, através de leis que permitam este crime ambiental, favorecer igrejas com o não pagamento de tributos nem controle do dízimo, favorecer as patentes nacionais de química avançada e remédios para manter no poder de poucos a produção de remédios para uma população que não tem medicina de família, ou seja, uma população que já chega enferma nos centros de saúde públicos esfacelados pela falta de recursos e tem então que partir para um seguro médico, pois o SUS não funciona; então aí nesse momento aparecem os bancos vendendo seguros de saúde a preços acessíveis.

Enfim, as oligarquias que derrubaram Jango e Dilma são as mesmas; um Congresso suspeito, uma FIESP que continua comprando parlamentares e pessoas que possam influir na desestabilização política, como fizeram com a “Marcha da Família e Deus pela Pátria” em 1964, e o fizeram agora através de financiar o MBL e o Pato amarelinho, uma mídia comprometida e pertencente a poucas famílias, como fez o IPES em 1964 e por último alguém que dê sustenção após derrubar um governo legítimo. Aqui uma diferença, em 64 sustentou-se pela força e prepotência dos militares, mas hoje é pelas togas e decisões tendenciosas do judiciário de capitanias hereditárias. Necessitamos de uma nova constituinte, mas uma constituinte em praça pública, com o povo na rua, com sindicatos e movimentos sociais de base reivindicando diretamente o que lhes pertence, um Brasil para todos.

PÁGINA 64: O Senhor pensa em participar politicamente dessa próxima eleição?

JVG: Eleitoralmente? Não sei. Quem sabe é o destino que conduz nossa vida; mas se for pela memória de meu pai, que possa trazer à luz a sua luta pelas Reformas de Base, quem sabe. Eu já estou participando. Os anos nos ensinam que participar politicamente não é somente através da participação eleitoral. Se participa politicamente em conferências, palestras, debates ou até mesmo através da caneta, da crítica de redação e da poesia. Estou lançando em várias capitais, (já foram sete delas),  o livro que escrevi sobre o meu pai no exilio, “Jango e eu”, que para minha grande honra, foi trazer a superfície os dias de resistência de meu pai e sua luta no exílio. Várias pessoas que o leram me dizem que pela primeira vez alguém conseguiu dar voz ao Jango, ao Jango homem, ao Jango pai, reconstruindo singelos diálogos informais dentro de casa, imprimindo nele uma faceta desconhecida na história. Ele dialoga com a família, como um pai e como um ser humano que amou e lutou muito pelo Brasil, e que lamentavelmente devido a sua luta, nunca mais pode pisar o solo de sua Pátria. É esse o Jango que me dispus a resgatar e a lutar por ele. Não será a inercia de uma aliança trabalhista espúria com um traidor da história no GDF, ingrato, pois inclusive a vinda desse governador e de sua família para Brasília foi a nomeação de Jango a seu pai, Dr. Armando Rollemberg para o antigo Supremo Tribunal de Recursos, que me fará permanecer ao lado de covardes, fisiologistas e políticos sem escrúpulos. Jango é maior que isso, fico ao seu lado, onde sempre estive, onde sempre estarei.

PAGINA 64: Uma última pergunta, se vivo fosse, em que partido estaria Jango?

JVG: É difícil e um tanto hipotética a pergunta, pois muito tempo tem se passado e a previsão talvez não fosse em um partido. Jango em sua vida só teve um partido desde 1946 quando entrou para a política, que foi o PTB, que presidiu nacionalmente desde 1953 até o golpe de 64. Os partidos hoje perderam essa ideologia e o trabalhismo migrou do PTB para o PDT com a volta do Tio Leonel Brizola do exílio. Depois da morte de Brizola muitos trabalhistas migraram para outras legendas e movimentos. Repito, os partidos estão perdendo suas ideologias por mobilizarem-se só eleitoralmente visando o fundo partidário. O PDT tem uma juventude altamente atuante e dedicada, mas não tem vez dentro da transformação doutrinaria que, acertadamente querem imprimir dentro do partido, pois este não olha para dentro de seus quadros. Virou, repito, visando o fundo partidário um “importador de quadros”. Agora mesmo, para estas próximas eleições de 2018, importou o candidato a presidente, Ciro Gomes, importou o candidato a governador do Rio Grande do Sul, Jairo Jorge, importou o candidato a governador de São Paulo, Chalita, importou o candidato a governador do Rio, Rodrigo Neves e isto por enquanto, falta muito ainda para as eleições. Mas voltando a Jango, ele estaria sem dúvidas na praça pública, ao lado do povo como ele queria exigindo as reformas, sem intermediários, exercendo com a sociedade uma democracia participativa, sem representantes eleitos por conchavos ou elites.

Jango hoje transcende a partidos, ele está no coração de todos aqueles que querem um Brasil mais justo, mais digno, mais distributivo. Tenho filhos no PDT, no PT e no PPL, e até no Partido Nacional do Uruguai, portanto Jango pertence a todos aqueles que não admitem privilégios para os já privilegiados.

“Na praça pública, que só ao povo pertence…”

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